Eu conheci um menino...

Eu conheci um menino que queria ser cantor...

Ele empunhava um pedaço de antena de TV como a mesma adrenalina que um pop star empunha um microfone...
Na sua imaginação transformava o "terreiro" no palco, e as árvores frutíferas morro acima no público... O vento que soprava fazia com que o público o aplaudisse, assoviasse, e pedisse mais... mais...
Ecoava naquele cenário, na voz do menino cantador a música "eu quero apenas, de Roberto Carlos"...

Mas o menino achou que havia algo errado! Sua voz não era boa o bastante, achou que cantor precisava de um timbre grave, e desistiu de sonhar, desistiu de cantar, desistiu de aprender, aperfeiçoar e realizar...

Eu conheci um menino que queria ser jogador...

Ele vestia seu calção preto, e descalço entrava no campo de terra como se pisasse no templo maior do futebol mundial...
Ele jogava bem, fazia gols, ouvia elogio dos adultos que o viam jogar... Para ele os companheiros de time eram amigos de seleção, ele os orientava como um capitão faz com sua equipe...
Os caminhantes que passavam na rua eram como equipes de reportagem que chegavam para cobrir o clássico dos milhões... As árvores, agora mais longe, continuavam espectadoras, mas agora vibravam com os gols, com os dribles, com a garra da criançada descalça, sem camisa, chutando uma bola de capotão surrada...

Mas o menino achou que havia algo errado! Que só seus dribles não bastariam, e que seus gols não eram tão bonitos quanto os gols dos outros, achou que faltava algo e faltava, atitude, vontade e garra de vencedor... mais uma vez o menino desistiu...

Eu conheci um menino que adorava escrever....

Ele escrevia cartinhas de amor, redações, como um escritor famoso escreve um best-seller... E muitas vezes eram as lágrimas emocionadas que brotavam dos seus olhos e percorriam seu rosto que ao cair selavam as cartas... Sim havia todo o amor que ele tinha no coração naquelas rimas ainda mal rimadas... havia o melhor dele, o sentimento puro e inocente de uma criança...

Mas aí foram os adultos com as piadas irônicas que fizeram o menino achar que havia algo errado. Que era preciso estudar, criança não podia falar ou escrever sobre amor... E o menino conheceu o amor platônico.. Mais uma vez o menino achou que havia algo errado! E simplesmente parou de escrever, guardando dentro de si os sentimentos e perdendo a oportunidade de crescer e desenvolver o dom...

O que havia neste menino era um desejo de cantar, jogar e escrever, desprovido do pensamento materialista, não era dinheiro que ele queria em troca, era apenas expressar-se, e fazer aquilo que ele amava fazer, mas, ele simplesmente desistiu de tudo, porque achou no perfeccionismo uma justificativa para deixar de fazer aquilo que amava...

E depois de mais de 25 anos o menino, agora adulto descobriu que, o perfeito simplesmente não existe, e, ainda que possa parecer perfeito, não é garantia de sucesso...

Um outro menino inocente ensinou sem querer uma lição de vida ao adulto de 36 anos. Um desenho que tinha tudo para não ser "perfeito". Construído em duas etapas, em lugares diferentes, rabiscado por cima por um adulto desavisado, amassado pela criança descuidada ao colocar na mochila, e ainda foi quase destruído.

Um desenho que passou dias no banco traseiro do carro, que só foi levado ao concurso porque alguém respeitou a criação do artista.

Um desenho que foi pendurado ao lado de dezenas de outros desenhos, tão bonitos e criativos quanto aquele.

Este desenho foi escolhido como "destaque" e o menino foi premiado...

Mas, a lição que fica é, o perfeccionismo é uma justificativa para desistir, e,  quem quer vencer, terá que se expor, ainda que sob sua avaliação haja sempre algo a melhorar ou imperfeito.

Parabéns Mateus... e obrigado por ensinar a maravilhosa lição ao menino que ainda vive dentro de mim...

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