1986... A MENINA, A CHUVA, O ADEUS...

Algumas coisas o ser humano só entende quando vive a experiência... Outras, entende quando vê alguém que ama sofrer, não precisa dizer nada, apenas calar e deixar que cada um sinta e cure-se da maneira que for melhor...

...

Era 1986, eu tinha 10 anos de idade. Um dia acordei ouvindo os adultos dizerem que ela havia sofrido um "derrame". Não entendia o que era aquilo. Mas, entendi que era ruim, os adultos sofriam. O sofrimento estava em suas expressões, a tristeza de suas faces era regada pelas lágrimas que caíam dos seus olhos.

Os encontros com os adultos eram tristes. Eu não ousava perguntar o motivo, eu sabia o que lhes afligia, não queria tocar no assunto e vê-los chorar na minha frente, tornei-me mestre em evitar assuntos tristes para não ver os outros chorando.

Sofria sozinho. Descia o morro da Rua Nacar, fazia as curvas pela estrada de chão, até chegar na travessia com a Rua Guanabra, o companheiro da primeira parte da caminhada, o pensamento, "o que é um derrame?". 

Atravessava a Guanabara, caminhava pelo lado esquerdo até a Rua Colônia, dobrava à esquerda, e novamente à esquerda na Rua Barbosa Rodrigues. Quando enfim chegava a escola ainda me questionava em vão. As vezes o pensamento ficava no portão, outras vezes entrava comigo.

Não sei ao certo quanto tempo levou a agonia dos adultos, entre hospital, choro, dor. 

Ouvia os adultos dizerem, "ela sofreu muito durante o jogo, incomodou-se", "ela passou mal durante a noite, e foi levada as pressas para o hospital". Eu ouvia, mas, não queria saber.

Além dos adultos, também as crianças sofriam. Duas em especial, uma das quais me recordo com carinho. Era uma "amiga". Minha amiga sofria, os adultos sofriam.

Um dia ouvi um adulto esboçar um sorriso e dizer "ela reagiu". Talvez ele soubesse que não era uma reação, agora eu entendo que não era, mas, ela tentou.

Naquela noite fui acordado pelo choro desconsolado dos adultos. 

Eu gostava daquela mulher. Ela tinha 38 anos, e deu nome a outra pessoa que amo. Ela tinha um sorriso espontâneo, e, traços inconfundíveis do patriarca da minha família. Mais de 20 anos depois eu ainda ouço narrações de fatos sobre a bondade daquela mulher, sobre o amor fraterno e materno.

Fomos todos para a casa onde ela morou, a casa de minha amiga, uma casa verde, verde-esperança. Coube a um adulto contar a minha amiga que sua mãe havia partido. Não presenciei o momento, mas, fiquei sabendo mais tarde.

Acordaram-na, se é que naquele tempo ela teve alguma noite de sono, e, dizem que foi assim:

- Querida, querida
Uma leve sacudidela como se não quisessem acorda-la para não que fosse preciso anunciar o acontecido, ela acordou.
- Oi
- Nós temos algo para lhe contar
Silêncio, chuva.
- Eu já sei... a minha mãe faleceu
- Como você sabe?
- Porque até o céu está chorando...

Comentários

  1. Silvana Carvalho4 de abril de 2013 22:39

    Que bela homenagem ... vc eh excelente na arte de escrever.. transcreve o sentimento com maestria... te amo e tenho muito orgulho de ser sua irmã ...

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